Anatomia da Região Inguinal

 

        A parede abdominal é composta por nove camadas de tecido: pele, tecido celular subcutâneo ou tela subcutânea, fáscia superficial, músculo oblíquo externo, músculo oblíquo interno, músculo transverso do abdome, fáscia endoabdominal ou fáscia transversalis, tecido adiposo pré-peritoneal e o peritônio. Na porção anterior da parede abdominal encontramos ainda o músculo reto do abdome e o músculo piramidal. Na região inguinal apenas a aponeurose do músculo obliquo externo reveste a parede abdominal, estando a porção muscular localiza lateralmente (Fig 1).

 

 

Fonte: NETTER, Frank H.. Atlas de Anatomia Humana. 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

Fig 1 - Abdome. Vista anterior.

 

Tecido celular subcutâneo

    É composto por duas fáscias. A primeira, mais superficial, é a fáscia de Camper e a profunda é a fáscia de Scarpa.

    A fáscia de Camper é um verdadeiro panículo adiposo, capaz de ter vários centímetros de espessura em indivíduos obesos. A fáscia de Scarpa é composta por tecido fibroso e contem pouca ou nenhuma gordura. Suas fibras são elásticas  e de tonalidade amarelada (Fig 1).

 

Músculo obliquo externo do abdome

    É um músculo amplo, plano e quadrangular. Mais extenso em sua parte ventral que na parte dorsal. Recobre a face lateral do abdome com sua porção muscular e a face anterior com sua porção aponeurótica (Fig 1). Tem origem na  5° a 12° costela (bordas inferiores) e se insere na crista ilíaca, ligamento inguinal e lâmina anterior da bainha do reto abdominal. É inervado pelos ramos ventrais dos nervos torácicos, nervo ílio-hipogástrico e nervo ílio-inguinal. Ele comprime o abdome, flete e rota o tronco para o lado oposto e auxilia a expiração forçada.

 

Aponeurose do obliquo externo do abdome

    É uma membrana fibrosa e brilhante que recobre toda a superfície ventral do abdome, contribuindo para formar a bainha do m. reto do abdome (Fig 1). As fibras dos dois m. oblíquos externos se entrelaçam na linha mediana para formar a linha alba, sendo esta a verdadeira inserção do músculo, se estendendo desde o apêndice xifóide até sínfise púbica. A porção medial da parte inferior da aponeurose (Fig 1) termina em uma borda tendínea denominada ligamento inguinal. Ao caminhar em direção ao púbis esta porção da aponeurose separa-se e forma dois pilares (um medial e outro lateral) formando um estreito triangular denominado anel inguinal superficial, por onde passa o funículo espermático. Lateral e superiormente a esse anel os feixes que caminham da direção habitual orientam-se cranialmente em direção a linha media formando curvas, à essas fibras dá-se o nome de fibras intercrurais (Fig 1).

 

 

Fig 2 - Corte transversal do abdome na região inguinal evidenciando as diversas camadas da parede abdominal. Vista superior.

 

Ligamento inguinal

    Também conhecido como ligamento de Poupart, é a parte inferior e tendínea da aponeurose do m. obliquo externo do abdome (Fig 1). Esse ligamento se estende da espinha ilíaca ântero-superior até o tubérculo púbico. Sua margem livre, ou terço medial, denominada arco inguinal superficial, da passagem ao feixe vasculonervoso femoral e fixa-se à superfície pectínea do púbis através do ligamento pectíneo. Envia um feixe reflexo, na parte curvada da sua borda livre, que se insere na fáscia pectínea. Esse feixe recebe o nome de ligamento lacunar. Seu terço lateral está firmemente unido a porção fáscia ilíaca, onde esta se funde a fáscia transversal e se continua com a fáscia lata.

 

Ligamento lacunar

    Também chamado de ligamento de Gimbernat, é a extremidade medial do ligamento inguinal que passa inferiormente ao funículo espermático e se fixa à fáscia pectínea próximo ao tubérculo púbico (Fig 3 e 4).

 

Ligamento reflexo

    É uma delgada fita tendínea triangular, com 2 ou 3 cm de largura, que se origina da inserção do ligamento inguinal na linha pectínea  e parte da porção medial do anel inguinal em direção a linha alba.

 

Ligamento pectíneo

    Também conhecido como ligamento de Cooper, é uma faixa estreita de fibras aponeuróticas que se continuam lateralmente ao ligamento lacunar ao longo da linha pectínea do púbis (Fig 3 e 4). É formado pelo periósteo e pela fáscia ao longo do ramo superior do púbis. Forma a borda posterior do canal femoral. Serve como ponto de reparo no reforço da parede posterior nas cirurgias pela técnica de McVay.

 

 Trato iliopúbico

    É a continuação da aponeurose e da fáscia do m. tranverso proximo a borda superior da bainha femoral. Ele forma o pilar inferior do anel inguinal interno. Está localizado posteriormente ao ligamento inguinal e cruza os vasos femorais para se inserir na espinha ilíaca ântero-superiror.

 

Músculo obliquo interno do abdome

    É menor e mais fino que o m. obliquo externo do abdome e está coberto por este. Recobre a face anterior e lateral do abdome (Fig 3), estando situado entre o m. obliquo externo do abdome e o m. transverso do abdome. Algumas de suas fibras se continuam com o funículo espermático para formar o m. cremaster. Essas fibras formam uma lâmina compacta quando estão no interior do canal inguinal, mas quando emergem pelo anel inguinal superficial formam umas serie de alças que alcançam o testículo e se inserem na túnica vaginal. O m. cremaster tem função de tracionar o testículo cranialmente e é inervado pelo ramo genital do nervo genitofemoral.

    O músculo oblíquo interno do abdome se origina na crista ilíaca, fáscia toracolombar e nos dois terços laterais do ligamento inguinal. Se insere nas bordas inferiores das ultimas 3 costelas e na linha Alba. É inervado pelos ramos ventrais dos nervos torácicos, nervo ílio-hipogástrico e nervo ílio-inguinal e sua contração comprime, flete e rota o tronco para o mesmo lado, além de auxiliar a expiração forçada.

 

 

Fonte: NETTER, Frank H.. Atlas de Anatomia Humana. 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

Fig 3 - Abdome apos remoçao do m. oblíquo externo e sua aponeuro. Vista anterior.

 

Músculo transverso do abdome

    Possui esse nome porque suas fibras correm em direção transversal pelo abdome (Fig 4). Está situado na parte mais profunda da parede muscular da região lateral e anterior do abdome. Se origina na face interna das 6 últimas cartilagens costais, fáscia toracolombar dos processos transversos das vértebras lombares, lábio externo da crista ilíaca e ligamento inguinal. Insere-se na linha alba. É inervado pelos ramos ventrais dos nervos torácicos (nervos intercostais posteriores), nervo ílio-hipogástrico e nervo ílio-inguinal. Tem função de contrair e tencionar a parede abdominal (compressão abdominal).

 

 

Fonte: NETTER, Frank H.. Atlas de Anatomia Humana. 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

Fig 4 - Abdome camada profunda. Vista anterior.

Foice inguinal

    É a porção terminal do tendão comum do m. obliquo interno e transverso, presente em aproximadamente 15% da população. Insere-se no púbis através da linha pectínea e da crista púbica (Fig 4). O tendão conjunto é um ponto de reparo nas cirurgias de correção de hérnias inguinais.

 

Fáscia transversal

    É a fáscia profunda da parede abdominal ântero-lateral, revestindo a face posterior do m. transverso do abdome, localizada entre estes músculo e a gordura pré-peritoneal. Ventralmente, a fáscia transversal ultrapassa a linha mediana e se continua do lado oposto. Estende-se desde a parte cranial do músculo transverso do abdome, onde tem relação com o diafragma e é a continuação da fáscia diafragmática, mudando apenas de nome ao perder contato com o diafragma. O mesmo acontece com a fáscia ilíaca e a fáscia do psoas, que ao deixar de ter contato com esses músculos muda de nome e passa a ser a fáscia transversal.

    Próximo ao canal inguinal ela apresenta dois espessamentos, um que se estende cranialmente, o ligamento interfoveolar, também chamado de ligamento de Hesselbach; e outro que se entende caudalmente, o arco crural profundo.

 

Anel inguinal profundo

    É o nome dado a interrupção da fáscia transversal ao dar passagem ao funículo espermático, na mulher ao ligamento redondo do útero. Está situado à meia distancia da crista ilíaca ântero-superior e sínfise púbica, logo acima do ligamento inguinal. Seu limite superior se faz pela margem inferior do m. transverso do abdome, seu limite medial se faz pelo ligamento interfoveolar e o limite inferior pelo trato iliopúbico.

 

Canal inguinal

    O canal inguinal é um conduto músculo-aponeurótico de trajeto oblíquo, de lateral para medial e de cranial para caudal, que se estende do anel inguinal profundo até o anel inguinal externo, correndo sobre o ligamento inguinal. Tem cerca de 4 cm de comprimento e esta quase que totalmente preenchido pelo funículo espermático no homem e ligamento redondo na mulher. O funículo espermático é formado pelo músculo cremaster, vasos cremastéricos, ducto deferente, artéria e veia espermática, conduto peritoneovaginal, plexo venoso pampiniforme e o ramo genital do nervo genitofemoral. No interior do canal inguinal encontra-se também o nervo ílio-inguinal.

    Seu limite anterior se faz pela aponeurose do m. oblíquo externo do abdome e o anel inguinal externo. O limite posterior é dado pela fáscia transversal (anel inguinal profundo), ligamento interfoveolar e tendão conjunto do m. transverso e obliquo interno. O limite inferior, como um assoalho, é formado pelo ligamento inguinal e pelo ligamento lacunar. A parede superior, formando um teto, é feita pelo m. transverso e oblíquo interno.

 

Fig 5 - Dissecção detalhada da região inguinal.

 

Triangulo de Hasselbach

    Descrito por Hasselbach, em 1814, é uma região triangular localizada na parede posterior do abdome. Limitada inferiormente pelo ligamento inguinal, lateralmente pela borda lateral do m. reto do abdome e medialmente pelos vasos epigástricos inferiores (Fig 5 e 6). Essa é a região de maior fraqueza da fáscia transversal e por isso vulnerável à formação de hérnias.

 

Fig 6 - Triangulo de Hasselbach e os vasos epigástricos inferiores.

 

Vasos e nervos da parede abdominal

    A parede abdominal é vascularizada pelas seis últimas artérias intercostais, quatro artérias lombares, artérias epigástricas superiores e inferiores (Fig 4) e das artérias circunflexas ilíacas profundas. A drenagem venosa é feita acima da cicatriz umbilical pelas veias mamarias internas e epigástricas superiores que drenam indiretamente para veia cava superior. Abaixo da cicatriz umbilical pelas veias epigástricas superficiais e e pudenda que drenam para a safena e pela veia epigástrica inferior que drena para a veia ilíaca externa.

    A inervação é feita pelos 7º ao 12º nervos intercostais que ganham o abdome através do plano entre o m. oblíquo interno e transverso. E também pelos nervos ilioinguinal, ílio-hipogástrico e ramo genital do nervo genitofemoral, sendo estes encontrados na região inguinal (Fig 7,8 e 9).

    Os vasos localizados na região inguinal são: artéria epigástrica superficial, ramo da artéria femoral; veia epigastrica superficial,  tributaria da veia safena magna (estes vasos estão localizados no tecido celular subcutâneo); artéria e veia epigástricas inferiores, ramo e tributária dos vasos ilíacos internos, passam pela face posterior da parede abdominal entre o m. transverso e a fáscia transversal, servem como limite do triangulo de Hasselbach (Fig 6).

 

Fig 7 - Diagrama de Nyhus da região inguinal direita. Observe as camadas musculoaponeuróticas que formam o canal inguinal.

 

 

 

 

Fig 8 - Vista posterior da parede abdominal anterior. Uma visão semelhante a encontrada pelo cirurgião na cirurgia videolaparoscopica de reparo de hérnia inguinal.

 

 

 

Fig 9 - Nervos e suas relações com as estruturas inguinais. Vista posterior da parede abdominal anterior.