Dissecção

 

    

 

"Ao te curvares com a rígida lâmina de teu bisturi
sobre o cadáver desconhecido,
 lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas,
 cresceu embalado pela fé e pela esperança
daquela que em seu seio o agasalhou. 
Sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens.
 Por certo amou e foi amado, esperou e acalentou um amanhã feliz e sentiu saudades dos outros que partiram.
 Agora jaz na fria lousa, sem que por ele se tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece.
 Seu nome, só Deus sabe.
 Mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir à humanidade. A humanidade que por ele passou indiferente"


(Rokitansky, 1876)

 

 

        Dissecção (ou dissecação) significa o ato de dissecar, de separar as partes de um corpo ou de um órgão. Emprega-se tanto em anatomia (dissecção de um cadáver ou parte deste) como em cirurgia (dissecção de uma artéria, de uma veia, de um tumor etc.)
        Dissecar origina-se do verbo latino disseco, are, que também se escreve deseco, are, cujo sentido é o de cortar dividindo, separando as partes. O substantivo correspondente, desectio, onis, traduz-se por corte, talho.
        Segundo Marcovecchio, dissecare, como termo médico, fora já empregado por Plinius, no século I d.C. Dissection, originado do latim dissectio, onis, foi introduzido na linguagem médica, tanto em francês como em inglês, no século XVI.
        Dissection foi adaptado para dissección, em espanhol; dissezione, em italiano, e dissecção, em português.
       
       A dissecção na área da anatomia humana é o ato de explorar o corpo humano, ou seja através de cortes possibilitar a visualização anatômica dos orgãos e regiões que existem no corpo humano e assim possibilidar o seu estudo. Através de muitos estudos de dissecção foi possível identificar e melhorar a área médica, através de conhecimentos básicos como a localização de vasos, nervos, ossos, músculos, com suas origens e inserções. Sem dúvida o ato de dissecar é muito importante e utilizado até hoje nos cursos de medicina.


 

CLASSIFICAÇÃO DO MATERIAL
TIPO
FUNÇÃO
EXEMPLOS
Diérese Corte, divulsão Bisturi, tesoura
Preensão Apanhar estruturas Pinça anatômica e dentes de rato
Síntese União de tecidos Porta-agulhas, agulhas

 

 

Diérese

    O bisturi é constituído por um a cabo reto com um encaixe em uma das extremidades para uma lâmina desmontável e descartável. Existem os cabos número 3 (para lâminas pequenas, em disscções delicadas) e 4 (mais usado, para lâminas maiores).

    Deve-se segurar o bisturi como se segura um lápis, ao escrever. A incisão deve ser feita inicialmente em um ângulo de 90o e, então, pode-se baixar mais a lâmina. A lâmina do bisturi pode ainda ser usada desacoplada ao cabo, como em um procedimento cuja profundidade ou largura são predeterminadas, em que pode-se fazer uma montagem com a lâmina e uma pinça hemostática, servido essa com a limitante da secção.

    A tesoura é usada para cortar tecidos orgânicos e materiais cirúrgicos, além de promover a dissecção e divulção dos tecidos. A tesoura de ponta curva é a mais usada pelo cirurgião, pois dá maior visibilidade em regiões profundas. A tesoura reta é muito usada na superfície, para corte de fios. É empunhada pelos dedos polegar e anular (falanges distais) introduzidos em seus anéis. Pode-se ainda "guardá-la" na palma da mão, entre períodos de uso freqüente, liberando 3 dedos para executar outras funções.

 

 

Preensão

    São instrumentos destinados a agarrar tecidos - pinças de dissecção. Auxiliares, geralmente são usadas pela mão esquerda, empunhadas como se fossem um lápis. O modelo "dentes de rato" é usado para procedimentos na pele ou para agarrar materiais como campo e borrachas. O outro modelo, anatômico, possui estrias transversais nas faces internas das pontas, e é usado em procedimentos diversos.

 

O Bisturi

       Muita fama lhe é atribuida, sendo um ícone do cirurgião e dos laboratórios de anatomia. Por isso trouxe aqui algumas curiosidades sobre este tão notório instrumento.

        A palavra bisturi procede do francês bistouri, primitivamente bistori. Sua origem é incerta; todavia, admite-se que derive do latim Pistorium ou Pistoria, antigo nome de Pistoia, cidade do norte da Itália, a mesma onde se encontra o cemitério dos soldados brasileiros mortos na segunda guerra mundial.

        Em Pistoia fabricavam-se excelentes facas e punhais, utilizados como armas e instrumentos de corte, que se tornaram conhecidos em latim por pistoriensis e em italiano por pistorino e pistolese.

        A substantivação desses adjetivos explica as formas adaptadas ao francês de bistorie e pistolet. "As duas palavras são certamente idênticas, porém a causa da substituição de p por b, que deve ser buscada na influência de uma outra palavra, permanece obscura".

        Ambroise Paré (1506-1590) foi o primeiro a empregar o bisturi como instrumento cirúrgico e em seus trabalhos encontram-se indiferentemente as duas formas: bistouri e pistolet. O instrumento foi aperfeiçoado para uso cirúrgico, prevalecendo o primeiro nome, que se difundiu a outros idiomas: inglês, bistoury; espanhol; bisturi; português, bisturi. Em italiano coexistem as formas bistori, bistorino e bisturi, com preferência para esta última. Em português também já se empregou bistori, como se lê nos dicionários de Moraes , Vieira e Aulete.

        Escalpelo origina-se do latim scalpellum, diminutivo de scalprum, que pode significar qualquer instrumento cortante. Celsus empregou tanto scalpellumcomoscalprum com o sentido de bisturi.

        Escalpelo é termo pouco empregado atualmente em linguagem médica e, assim mesmo, de uso restrito às dissecções anatômicas. De escalpelo deriva o verbo escalpelar, com o sentido de dissecar.

        No século XVI, quando viveu Ambroise Paré, a língua oficial erudita utilizada nas publicações médicas e científicas era o latim. Como Paré não soubesse latim, o que lhe valeu o menosprezo de seus contemporâneos, escreveu todos os seus trabalhos em francês. Talvez por esta razão tenha empregado bistouri, palavra mais antiga em francês, em lugar de scalpel, cuja introdução na língua francesa só ocorreu a partir de 1539.
 

 

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